No campo são 11 de cada lado, uma bola e vence quem marcar mais gols. É quase impossível não se deixar envolver pelo clima de euforia da Copa do Mundo. As melhores seleções e os jogadores mais brilhantes em busca da taça e de uma estrela na camisa, para alguns a primeira, no caso brasileiro, a sexta. Somos o país do futebol.
Mas sabemos, por experiência própria, que é preciso muito mais que tradição para vencer em campo - até mais do que habilidades individuais. Treino, equipe unida, foco e motivação são só alguns atributos para um time campeão. Fora de campo não é diferente. Na vida, para alcançar qualquer objetivo, é necessário o mínimo de estratégia.
Mesmo não sendo um fanático por esta paixão nacional, você deve admitir que o futebol pode trazer valiosas lições que vão além do esporte e se refletem na carreira e nos relacionamentos pessoais. Albert Camus, filósofo argelino e apaixonado por futebol, definiu o esporte como sendo nada mais que "a inteligência em movimento". A seguir, você confere cinco ensinamentos.
Foco no lance!
FutebolA concentração pode ser listada como a primeira das lições que o esporte nos traz. Antes de disputar uma competição importante, comissão técnica e jogadores ficam "concentrados" em um espaço sem os prazeres "mundanos" por perto. Contrariando a afirmação recente do técnico Dunga de que "nem todo mundo gosta de sexo, de tomar vinho ou sorvete", passar dias e dias sem diversão é uma missão árdua para quem tem sangue nas veias. Entretanto, a concentração acaba sendo uma forma de terapia coletiva, que visa a equilibrar o estado emocional dos jogadores, afastando-os de distrações e ajudando cada um a focar num objetivo único: a vitória.
Na vida cotidiana, principalmente no trabalho, estar concentrado é fundamental para evitar erros e ter que refazer as tarefas. Mas, trabalhando o dia todo na frente do computador, isso se torna uma missão para craques, pois a Internet nos oferece distrações tentadoras, de fazer inveja a Vagner Love, atacante brasileiro conhecido pelas escapadelas nas concentrações. Seu colega de time, Adriano, o Imperador, apesar do talento, dizem os entendidos, ficou de fora da Seleção Brasileira por indisciplina.
Entretanto, Neném Prancha, conhecido como o filósofo da bola, é dono da máxima que traz um contraponto à rigidez das concentrações: "se concentração ganhasse jogo, o time da penitenciária seria campeão invicto". Na vida prática, viver em um isolamento parecido com as concentrações dos jogadores faz com que você não desfrute dos prazeres, priorizando apenas o trabalho.
Por que então não experimentar a Pomodoro Technique, tática do escritor italiano Francesco Cirillo para driblar as distrações que tanto atrasam nosso jogo da vida cotidiana? Consiste no seguinte: quando tiver uma tarefa que exige dedicação, comece a fazê-la e programe um despertador (por isso o nome "pomodoro", inspirado no formato popular dos timers de cozinha) em 25 minutos. Até o alarme tocar, você deve dar tudo de si àquela tarefa, com a recompensa de poder descansar cinco minutos quando o alarme soar.
Time unido
De acordo com a psicóloga Andréa Garcia, uma das maiores lições que o esporte nos dá é que devemos sempre pensar no outro. "Não somos sozinhos e não devemos agir de forma individualista, em suma, temos que ter o espírito de equipe", diz ela. Um time campeão não é feito apenas de camisas 10, cada um tem sua função e os gênios individuais não conseguem se sustentar se a equipe não estiver em sintonia. Para o administrador de empresas Alcides Beé, uma das lições do futebol para o bom profissional é: "quando um trabalho em equipe é bem conduzido os resultados são sempre os melhores", aponta.
Ou seja, fora dos campos, a dupla esquema tático e entrosamento só traz bons resultados. Assim como no futebol, em que o individualismo não exclui a solidariedade, quem não sabe repassar conhecimentos para o outro e não se preocupa com a influência de seu trabalho nos resultados finais acaba colaborando para uma derrota de lavada.
Um exemplo de organização de equipe é o "futebol total", conhecido como "carrosel holandês". Nele, os jogadores saem de suas posições de jogo originais e são substituídos por outros. Neste sistema, ninguém fica com uma posição de jogo fixa, o que pode contribuir para fortalecer o time, pois se torna mais difícil de marcar - a exemplo da Holanda, que chegou, com esse esquema, a duas finais de Copa do Mundo seguidas em 1974 e 1978.
Além disso, do lado do torcedor apaixonado, vemos que muitos entram em campo, por estarem contagiados pelo espírito de equipe. "Ele é o juiz, técnico, preparador físico, jogador, enfim, experimenta muitos papéis em apenas 90 minutos", diz a psicóloga Andréa.
Nenhum jogador pode ser maior que o jogo, ou seja, ninguém alcança nenhum objetivo sem o braço do outro e sem conhecer o trabalho como um todo, algo quase natural: é impossível ser feliz sozinho, como prega o refrão de Tom Jobim. "Muitas pessoas, no ambiente de trabalho, estão trabalhando em grupo e não em equipe, onde o trabalho é individual e cada um se preocupa em realizar apenas sua tarefa e pronto", explica a psicóloga.
Um grupo é apenas um conjunto de pessoas com objetivos comuns que, em geral, se reúnem por afinidades. A família também reflete essa situação. Há famílias em que os membros se ajudam e se apóiam de fato. Há outras que apenas servem para protagonizar belas fotos na parede.
Fome de gol
FutebolA palavra gol vem da palavra inglesa goal, que também significa meta. Saber aonde quer chegar e como irá chegar faz com que você conheça a fundo seu objetivo, trace as possíveis consequências e as dificuldades que enfrentará. Essa estratégia acaba oferecendo um motivo para assumir um compromisso com o seu próprio sucesso, pois ninguém se compromete de verdade com aquilo o que não conhece, afinal. Sem isso, é muito pouco provável que alguém consiga o que quer. Não se esquecer dos obstáculos é parte fundamental para a vitória. Entretanto, uma estratégia coerente para superá-los envolve esforços. O administrador de empresas Alcides Beé, coloca outra lição importante para a vida profissional: "os obstáculos só serão fortes se a nossa preparação tiver sido fraca".
O efeito homem-gol
Se por um lado o espírito de equipe é fundamental para a vitória, nada acontece sem o talento; não importa a função exercida, a
O ex-jogador Zico, ídolo da torcida brasileira e atual diretor do Flamengo, dá uma lição de talento sem entrar na onda do estrelismo. Ele jogou em um pequeno time da Itália, o Udinese, onde, por ser um grande jogador, foi recebido como rei. Mesmo assim não se colocou como salvador da pátria, apesar de seu desempenho ter sido bastante importante para o clube conseguir o vice-campeonato na série A da temporada de 1983/84.
No jogo da vida, a força e as habilidades são fundamentais, porém não há um padrão, pois cada um tem suas potencialidades. Além disso, um craque é aquele que não se limita ao básico. Na vida profissional, cada pessoa tem um talento específico que contribui com o trabalho de equipe.
Sendo assim, é preciso descobrir qual é o seu ponto forte, investir nele, e observar o que falta, tanto para alcançar metas profissionais, quanto para, conhecendo melhor a si mesmo, encontrar pessoas que tenham a ver com você, ou tragam um repertório de habilidades e ideias que se somem às suas. E também vale lembrar que não basta possuir as qualidades se você não acredita nelas, pois, assim, fazer com que as pessoas as enxerguem ficará bem mais difícil.
O músico Chico Buarque, um fluminense inveterado, canta na música O Futebol: "pintura é mais fundamental que um chute a gol". Em outras palavras: vale ressaltar a importância de mostrar as qualidades, para comunicar todo o potencial, algo bastante avaliado no ambiente de trabalho. Mas não vale confundir essa jogada de classe e cair na firulagem - que te faz perder a jogada e, às vezes, a partida.
Aguenta coração!
A paixão é quase eixo central do comportamento dos torcedores fanáticos, que pode também trazer uma lição para a vida. "O futebol é um grande gerador de paixões. É claro que se o seu time perde você não fica satisfeito, mas é bom lembrar que durante aqueles 90 minutos da partida você torceu, vibrou e depositou sua confiança nele", como diz Marcelo Sadio, autor do livro "Amor Infinito, o sentimento não pode parar", de fotos que retratam o amor do torcedor do Vasco pelo seu time do coração. O fotógrafo conclui: "a lição que tiro disso é que devemos ser mais apaixonados por aquilo que fazemos e por nossa própria vida em si, pois isso é o que move os bons resultados e nossa própria crença na vida".
