A distorção da imagem corporal e o medo excessivo de ver o ponteiro da balança despontar atingem, na maioria das vezes, as meninas. De acordo com a endocrinologista Glaucia Duarte, estudos de centros especializados mostram que de 90 a 95% dos casos de anorexia são do sexo feminino. "Nos Estados Unidos, estima-se que os transtornos alimentares, em geral, acometem cerca de sete milhões de mulheres e um milhão de homens", informa a especialista.
Os primeiros episódios da doença costumam aparecer entre os 14 e 18 anos. 'Mas a doença tem curso crônico, com evolução prolongada, de maneira que encontramos mulheres adultas com todos os sintomas, que vem se arrastando desde idades muito precoces", alerta a médica especializada em endocrinologia e nutrologia, Ellen Simone Paiva.
Junção de fatores desencadeia o transtorno
As causas do aparecimento da anorexia ainda são indefinidas, assim como o fato de a doença se desenvolver mais entre as meninas. No entanto, alguns fatores desencadeantes são reconhecidos. "Tais fatores apresentam-se como eventos negativos na rotina das pessoas propensas a manifestar o comportamento de serem magras e atraentes", explica Glaucia. Como exemplos, ela cita a perda de um parente próximo, um amor não correspondido ou um fracasso profissional.
Somado a isso, existe a pressão social, que cultiva a idéia de a mulher magra ser mais atraente. "Vivemos em uma sociedade que supervaloriza a magreza. As pressões sociais para que as pessoas, principalmente as mulheres, se enquadrem neste modelo geram preocupações extremadas com a imagem corporal", ressalta Ellen.
Ainda de acordo com a endocrinologista e nutróloga, a exposição dos padrões rigorosos da sociedade moderna e a insatisfação gerada pela imagem corporal idealizada podem gerar padrões comportamentais alimentares com restrições extremas. "Isso propicia o aparecimento dos transtornos alimentares", contextualiza.
As especialistas reforçam, porém, que a manifestação da anorexia nervosa é uma combinação de diversas causas. Apesar das influências desses padrões culturais serem generalizadas, somente algumas mulheres desenvolvem os transtornos alimentares , mostra Ellen. "Provavelmente, existem outros fatores que podem aumentar a susceptibilidade à doença, como perfeccionismo, ansiedade, impulsividade e sobrepeso", completa.
A"lgumas evidências apontam para a disfunção em uma região cerebral, chamada hipotálamo, que levaria à má regulação ou ao descontrole dos níveis dos neurotransmissores cerebrais e desencadeariam a doença", informa Glaucia. Resumido por ela, o grupo de causas inclui fatores genéticos, neuroquímicos, socioculturais e questões ligadas ao desenvolvimento psicológico.
Prejuízos na adolescência
As conseqüências da anorexia são inúmeras, indo desde desnutrição com anemia até parada das menstruações e debilidade física. "Tudo isso acontece devido à escassez de tecido gorduroso, que impede o metabolismo normal dos hormônios femininos. Sem alimentos, o organismo consome a própria massa muscular, a fim de obter energia para as funções vitais", esclarece Ellen.
É comum tais conseqüências aparecerem num cenário em que o corpo apresenta uma maior necessidade calórica: na adolescência. De acordo com Glaucia, isso pode comprometer o desenvolvimento e resultar numa estatura menor do que a que poderia ser alcançada se a alimentação fosse equilibrada. Danos clínicos mais graves, como desidratação severa, perda de potássio e propensão a arritmias cardíacas também são observados.
Uma pesquisa realizada pelo setor de nutrologia do Hospital do Coração comprova os danos causados por dietas desequilibradas. Durante dois meses, 26 modelos profissionais, de 14 a 24 anos, passaram por uma avaliação de hábitos nutricionais, além de terem o andamento do metabolismo verificado.
Segundo o cardiologista e nutrólogo do HCor, Daniel Magnoni, todas as participantes da pesquisa revelaram ter a necessidade de seguir dietas e praticar exercícios para manterem o peso adequado. Mas somente 30% delas fazem dietas e outros 30% praticam atividades físicas mais de três vezes semanais. Meninas que fazem dieta e praticam exercícios somam apenas 8%. "As modelos reconhecem a importância da dieta elaborada por profissionais e dos exercícios físicos, mas preferem passar fome a mudar os hábitos", constata o especialista.
Mais uma descoberta do estudo é que as modelos possuem IMC (Índice de Massa Corpórea) baixo, entre 15 a 20 quilos por metro quadrado, sendo que o normal seria acima de 20, conforme as características físicas do grupo. De acordo com o nutrólogo, o baixo índice é resultado da desnutrição. As modelos são desnutridas em músculos e nutrientes, principalmente em massa muscular, cálcio, ferro e vitaminas , aponta Magnoni.
Além disso, as modelos participantes da pesquisa mostraram ter o hábito de consumir grande quantidade de proteínas e de ingerir poucas frutas. Os resultados são graves problemas intestinais e metabólicos, sem listar as fraquezas e cansaço crônico.
Ajuda familiar é fundamental
A família tem papel de destaque no reconhecimento dos comportamentos de risco, já que eles servem de sinal de alerta e identificam pessoas com a auto-imagem corporal distorcida. Entre os indícios, Glaucia Duarte cita dietas progressivamente mais seletivas, evitando alimentos de alto teor calórico e chegando ao extremo jejum, preocupação obsessiva com a forma e o peso corporal, prática exagerada de exercícios físicos e uso de métodos purgativos.
"Parte dos relacionamentos interpessoais cotidianos reforçam, apoiando ou criticando, as possíveis ações das adolescentes frente à sua imagem corporal", ressalta a endocrinologista. Os conselhos da especialista para prevenir o incentivo ao transtorno são informar sobre os riscos dos regimes muito rigorosos e diminuir a pressão cultural relacionada à valorização dos aspectos físicos.
De acordo com Ellen Paiva, o transtorno abala toda a família. "É comum as pacientes passarem de filhas padrão a filhas que dão trabalho. Elas reagem, às vezes, de forma agressiva, diante de qualquer tentativa de melhorar sua condição nutricional", relata a especialista.
A agravante é que, muitas vezes, a família nem percebe que a menina está passando por um grave processo psíquico. Por isso, apoio e orientação à família também são importantes. "Os parentes precisam ser acolhedores e compreensivos, além de evitar atitudes punitivas e recriminatórias. A tarefa não é fácil, no entanto", reconhece a especialista.
Eles podem ajudar, de graça!
O tratamento multidisciplinar é oferecido por hospitais públicos que têm institutos voltados aos pacientes anoréxicos. Confira, a seguir, algumas destas instituições e entenda mais sobre o atendimento disponibilizado por elas.
Ambulim (Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo)
Para tratar-se no Ambulim, o paciente deve passar por uma avaliação médica em um posto de saúde ou hospital público, primeiro. O médico poderá fazer uma guia de encaminhamento do SUS para o Ipq-HC. Com a guia em mãos, é preciso ligar para (11) 3069-6440 e verificar a existência de vaga para o atendimento. Outra forma é ingressar em algum protocolo de pesquisa aberto. Nestes casos, para obter mais informações, ligar para (11) 3069-6975.
Endereço: Rua Doutor Ovídio Pires de Campos, 785
Cerqueira César, São Paulo - SP
www.ambulim.org.br
Hospital e Maternidade Celso Pierro PUC-Campinas
O hospital oferece atendimento pelo SUS com equipe multiprofissional. A marcação de consulta, porém, é feita pelo encaminhamento da Unidade Básica de Saúde (UBS) ou ainda, por uma especialidade do próprio hospital. Quem tem convênio privado ou particular pode marcar uma consulta por telefone. O número é (19) 3343-8344 ou (19) 3343-8590.
Endereço: Av. John Boyd Dunlop, s/nº
Jardim Ipaussurama Campinas, SP
Telefone: (19) 3343-8600
http://www.puc-campinas.edu.br/institucional/quem/hmcp.asp
PROTA Programa de Orientação e Assistência aos Transtornos Alimentares (Unifesp)
Para ser atendido pelo programa, o paciente deve se inscrever na lista de triagem do serviço, que visa verificar se os sintomas apresentados se definem como transtornos alimentares. As triagens são realizadas em entrevistas individuais com psiquiatras ou psicólogos da equipe. Tais consultas devem ser agendadas pelo telefone (11) 5579-1543 ou pelo e-mail proata@psiquiatria.epm.br.
Endereço: Rua dos Atonis, 887
Vila Clementino, São Paulo SP
Telefone/fax: (11) 5579-1543
www.proata.cepp.org.br
